Mapeando os biomas do Mato Grosso na prática
O estado de Mato Grosso é um dos mais complexos do Brasil quando o assunto é divisão biogeográfica. Ele abriga três biomas principais e as transições entre eles são borradas, o que complica qualquer análise baseada apenas em dados federativos ou divisões administrativas. A maior parte da área central e sul pertence ao Cerrado, enquanto o norte é dominado pela Amazônia e o sudoeste apresenta faixas significativas do Pantanal.
Quais são os biomas do mato grosso
Amazônia, Cerrado e Pantanal. Simples na teoria, problemático na prática. Durante um projeto de levantamento fundiário para um cliente em Sinop, descobri que os limites do ICMBio versus a classificação do PRODES não convergiam no triângulo entre Diamantino, Colíder e Santa Carmem. A zona de transição Cerrado-Amazônia ali não obedecia a nenhum polígono oficial. O problema era que o solo estava sendo classificado como Cerrado pelo sistema do Ministério do Meio Ambiente, mas a cobertura vegetal ativa mostrava floresta em regeneração. Usei dados do Sentinel-2 com índice NDVI acumulado ao longo de 3 anos e cruzei com a camada de uso e cobertura do terreno do IBGE. A resolução de 10 metros do Sentinel resolveu o que as bases de 1km não conseguiam diferenciar. O Cerrado ocupa aproximadamente 65% do território estadual. É a savana mais rica em biodiversidade do planeta e, ao mesmo tempo, o bioma mais pressionado pela expansão da fronteira agrícola. A soja e o milho avancaram sobre áreas de cerrado sensu stricto nos municípios de Rondonópolis, Tangará da Serra e Várzea Grande sem que muitos produtores e até consultores percebessem a distinção legal entre cerrado densinho, campo cerrado e floresta estacional.
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A Amazônia mato-grossense concentra-se nas bacias dos rios Xingu, Tapajós e Araguaia. municípios como Alta Floresta, Juína e Aripuanã têm porções consideráveis dentro do bioma. Aqui o desafio não é só identificar a floresta, mas mapear o grau de fragmentação. Dados de desmatamento anual do INPE contam a história macro, mas não capturam o degrade progressivo que acontece entre um corte raso e outro. O Pantanal mato-grossense ocupa o sudoeste do estado, com destaque para os municípios de Cáceres, Poconé e Barbacena. A planície alagável tem dinâmica hidrológica própria que define a vegetação muito mais do que o solo ou o clima regional. Quem trabalha com sensoriamento remoto nessa área precisa levar em conta a sazonalidade das cheias. Imagens de julho parecem totalmente diferentes das de março no mesmo ponto.
Uma armadilha comum é tratar a divisão entre os três biomas como linhas fixas no mapa. Eles se sobrepõem, se misturam e migram dependendo da fonte de dados. O MMA tem uma classificação, o IBGE tem outra, e o PRODES frequentemente aponta áreas como "em transição" que na realidade são florestas secundárias em estágio avançado de recuperação. Para trabalhos sérios de Zoneamento Ecológico Econômico ou licenciamento ambiental, o ideal é cruzar pelo menos três bases e validar com fotos de campo ou imagens de alta resolução. Outro ponto que ninguém menciona bastante: a zona de ecótono entre o Cerrado e a Amazônia em Mato Grosso tem uma densidade de espécies arbóreas intermediária que não encaixa nas definições padrões de nenhum dos dois biomas. Se você está fazendo inventário florestal nessa faixa, usar apenas chaves dicotômicas de Cerrado ou Amazônia vai gerar erros sistemáticos de identificação. Recomendo consultar o manual de classificação da EMATER-MT para a região norte do estado. Os manuais genéricos do Ministério não cobrem essa zona cinzenta.